sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

IMMORTAL - Gostinho 4

Saudações Amantes da Irmandade!

E aqui estamos nós, de novo, para mais um gostinho de IMMORTAL, simpaticamente traduzido pela nossa Nighshade.

Contudo, relembro que serão APENAS alguns capítulos do livro, o mesmo NÃO será traduzido na totalidade.

Uma vez mais vos relembro que a ideia desta tradução e cativar a vossa atenção para esta serie. Juntarmos mais e mais fãs para que assim, a nossa Editora lance este ultimo livro. Leiam, comentem, convidem a irmã, a cunhada, a tia, a prima, a mãe... quem vocês quiserem, para lerem esta serie de Anjos Caídos!

Boas Leituras


Anjos Caídos # 6
Immortal  Capítulo 4
 Sissy respirava ofegantemente, apesar de ter percorrido apenas a distância donde tinha a Harley estacionada e a entrada da porta das traseiras da velha casa. Por outro lado, no regresso a casa teve de se agarrar com unhas e dentes ao guiador da mota. Era isso ou perder completamente o controlo.Ou será que isso já aconteceu, mesmo tendo regressado inteira?- Então? - Como se Jim não tivesse ouvido da primeira vez. - Não tens nada a dizer?Jim inclinou-se para a frente e, calmamente apagou o cigarro.- Sissy...- Ela violou-te! - À medida que a cara de Jim empalidecia, ela batia com a porta das traseiras, fechando-os lá dentro. - Pensavas que eu não sabia o que ela te tinha feito? Todos vimos através das paredes! Eu vi quando eles... te magoaram. Como podes... - a voz dela quebrou-se. - Como podes estar com ela depois disso?Naquele momento, ela queria chorar, mas não cedeu. Como podia? Aquele lugar não era seguro para ela, mesmo que os dois "homens" que estavam à mesa, ambos silenciosos e quietos, fossem, alegadamente, anjos.- De que lado é que realmente estás? - Exigiu saber.Jim coloca as mãos sobre a mesa e apoia-se nos braços. Ao levantar-se, era claro o esforço que fazia para controlar o seu temperamento, e por um segundo, ela sentiu uma pontada de medo.Mas ela já tinha enfrentado o diabo uma vez. Portanto, não ia agora ficar com medo dele.- Como queiras, esquece o que ela fez contigo... ela assassinou-me! - Ladrou Sissy. - Essa cabra roubou-me a vida. Arruinou a minha família. Nada voltará ao mesmo e nada nunca mais estará bem... e tu andas a dormir com ela?A voz de Jim era baixa e profunda.- Adrian, precisas de sair daqui agora.O outro anjo estava em pé e fora da sua cadeira antes de a sentença ter acabado. E enquanto saía a coxear, Sissy ficava contente com a privacidade. Estavam merdas a acontecer, e não havia necessidade de uma audiência.Quando ficaram sozinhos, Jim olhou para ela.- Eu não queria que tivesses visto aquilo.- O que eles te fizeram ou os arranhões que ela te deixou no peito ontem à noite?- Ambos.- Tarde demais.Ele fechou os olhos, mas ela não tinha a certeza se era porque ele tinha arrependimentos... ou se era por estar a pensar no que lhe iria dizer.- Não te percebo. - Ela abanou a cabeça. - E talvez isso me faça ser ingénua...- Isto é guerra. - Ele interrompe.- Mas é doentio! - Ela grita de volta. - És nojento!Com um impulso explosivo, ele vira a mesa, fazendo voar o prato, espalhando as cadeiras.- Vou usar tudo o que puder ao meu alcance se significar ganhar! Inclusive eu!Sissy recua um passo, e bate contra o fogão. Alguma coisa em relação à raiva dele fez com que ela se controlasse um pouco.Depois de um longo momento de impasse, ela diz sombriamente.- Não espero que gostes. Ou vais-me dizer que os homens conseguem levantá-lo mesmo sentindo nojo por alguém? Não penso que a anatomia funcione assim, mas também, sou virgem, não sou? Portanto, o que sei eu?Jim respirava com força, os olhos azuis brilhantes, e não de uma maneira boa. Mas ele não ia magoá-la, apesar do que ele tinha acabado de fazer àquela pobre mesa, ela sabia no fundo da sua alma que ele nunca, nunca a magoaria.Pelo menos não fisicamente.Apesar de já a ter quebrado por dentro. Mesmo sem ter a certeza de como ele fez isso.- Eu odeio - disse ele entrecortadamente. - Mas utilizarei qualquer arma nesta guerra, até o meu corpo. Estamos entendidos?- Então, és um mártir e salvador ao mesmo tempo? Não sei, como disse, acho que os homens têm de gostar, não têm?- Não consigo fazer isto contigo. - Ele abanou a cabeça. - Não vou fazer isto contigo.- Como se não fosse assunto meu? Como se o resultado disto não me afectasse?- Não, da mesma forma como não tens direito a esta conversa. - Com ela a exclamar, a raiva apodera-se dele e olha para ela sem nenhuma emoção. - Tu és a razão porque perdi a última batalha. Não a Devina. Mas tu. Estava tão preocupado contigo que não me consegui concentrar, e os resultados foram desastrosos em muitos níveis. Portanto, não vou fazer isto contigo. Não posso. Eu... não posso.Ela encolheu-se.- Era comigo... que andavas distraído?- Foda-se, com a Devina é que não era.Jim praguejava ao endireitar a mesa como se não pesasse mais do que uma palha. Depois pegou no prato, encontrou o garfo encostado ao frigorífico velho, e levou os utensílios para o lava-loiça.- Tenho trabalho para fazer - disse ao sair.E foi isso.Pelo menos da parte dele.Sissy foi atrás dele, agarrando num dos seus braços antes que ele alcançasse as escadas do hall de entrada. Ela teve que exercer toda a sua força para fazer com que ele se virasse.- Eu não preciso que te preocupes comigo - falou com os dentes cerrados.- Okay, não o farei.Ela ocultou o seu estremecimento.- E em relação à Devina, isso é assunto teu.- Pois é.- Mas preciso que tu me deixes ajudar.- Oh, nem pensar. Não existe sítio para ti nesta...- Eu ganhei o direito de lutar quando morri na banheira dela. Por ter estado na parede dela. Eu ganhei o direito de estar envolvida nisto, Jim.- De maneira nenhuma.- Eu tenho de lutar pelos outros como eu. - Isso calou-o o suficiente para ela continuar. - Existem mais como eu lá em baixo. E eles merecem estar livres como eu. Portanto, ou tu me deixas ajudar a ganhar isto, ou vou atrás dela sozinha. Tu escolhes.- Não sabes o que estás a dizer.- Uma merda é que não sei.- Ela consegue ler o livro.Com o som da voz de Adrian, ambos se viraram para a porta da frente. Estava escancarada, e o outro anjo estava parado nas escadas da frente da casa, a olhar para a luz do sol.Como se soubesse que tinha a atenção deles, Ad vira-se para eles.- Se tu queres entrar e sair inteiro do Purgatório, vamos precisar dela. A não ser que queiras passar os próximos vinte anos a traduzir o livro no Google Translate, quando não temos esse tempo a nosso favor.- Que livro? - Jim exigiu saber.- O livro que poderá dizer aquilo que precisamos de saber.- Purgatório? - Interrompeu Sissy. - De que diabo é que estás a falar?***O arcanjo Colin sentou-se na margem do rio no Céu, a olhar para a água, com as mãos sujas. Na da direita, uma adaga de cristal descansava contra a sua palma, na da esquerda, uma garrafa de gin. Obteve ambos na tenda de Nigel do outro lado do relvado.A sujidade nas suas mãos devia-se às suas recentes tarefas.Ele tomou um longo gole do gargalo e apertou o cabo da adaga com mais força. Apesar de ser um imortal, ele podia funcionar como um humano se ele assumisse o corpo em que se encontrava agora.E isso significava conseguir sentir os efeitos do álcool, o cansaço nos seus ossos... e a loucura na sua mente.De todos os finais que tinha considerado para esta guerra, ele sentado sozinho e Nigel morto, não tinha sido um deles.Olhando para trás, no tempo da Criação, os arcanjos tinham sido tornados seres para servirem como guardiões do Céu e da Mansão das Almas. Todos os cinco tinham, deliberadamente, servido como um equilíbrio de qualidades, cinco dedos a bordo de uma única mão, cada um com um papel a desempenhar no funcionamento do equilíbrio: Byron, que era a alma; Bertie, que era o coração; Colin, a mente; Lassiter, o corpo.E Nigel, o cumpridor das regras, o líder de todos eles.Lassiter tinha sido a carta fora do baralho, e não resistiu muito tempo. Distraído com as suas ânsias corporais, meteu-se em sarilhos épicos e acabou banido, condenado a um determinado destino em que apenas Colin poderia ter uma noção vaga. Por outro lado, Bertie e Byron tinham sido fiéis e verdadeiros desde o início, agora, neste momento de crise, com Nigel morto, estavam atrás das paredes da Mansão, protegendo o que era necessário proteger.Nigel também não resistiu, e o facto de ter desistido era uma quebra na sua graciosidade que Colin se esforçava a entender o melhor que podia no meio de toda aquela tragédia.Teriam existido sinais de que ele não se apercebeu? Algum ponto de viragem em que Nigel se tivesse sentido sem um retorno possível?Era impossível não se sentir culpado... não sentir que tinha sido a sua mão naquela adaga quando o sangue prateado do seu amado foi derramado.Mais de metade dele tinha agora desaparecido. A melhor parte dele tinha desaparecido.E o Criador não estava preparado para intervir. Deus foi o primeiro com quem Colin foi ter em desespero. O segundo foi o tampo abaulado de mármore da mesa francesa de Nigel, com a bandeja de prata cheia de refinados licores.Colin tomou outro grande gole da garrafa, o sabor forte a arranhar a garganta e a fazer arder o estômago.Os seus olhos foram até à corrompida ponta da adaga. A luz ambiente do Céu entrou na lâmina clara e refractou das suas faces lampejos gloriosos de arco-íris.Ele havia limpo o sangue prateado da tenda de Nigel. Deus sabia, que naquele palácio coberto de seda, havia panos, mais que suficientes, por onde escolher.E depois havia retirado da parede um crêpe de Chine, e embrulhado o seu corpo.Fortalecendo-se com outro gole da garrafa, ele virou-se e sentiu as lágrimas nos seus olhos.A pira funerária que estava a um metro e meio do chão, tinha sido obtida de um velho carvalho que Colin tinha cortado à machadada, bem dentro da floresta.Um trilho irregular havia sido formado desde onde a árvore tinha caído até onde a pira funerária fora construída, o caminho a ser desfeito pelo arrastar do tronco e braças maciças. Para cortar a madeira, ele usou o punhal que tinha na mão e a força da parte superior do seu corpo, pregos tinham sido colhidos de um barracão atrás da Mansão das Almas, antigas placas quadradas de metal tinham sido embutidas no sítio certo com uma pedra.A pira funerária não era uma obra de arte, especialmente comparada com as antiguidades de requinte com que Nigel se tinha cercado. Realmente, o arcanjo tinha tido uma preferência por coisas bonitas, razão pela qual, segundo as palavras dele, se tinha sentido atraído por Colin.Não era um final digno para um arcanjo. Nada digno.Colin ficou sentado durante algum tempo, a beber e a pensar. Depois levantou-se e foi ter com o seu amante. A seda que tinha escolhido para embrulhar Nigel era de um azul francês, e tinha escolhido esta porque esperava que as manchas de sangue prateado não se notassem muito.Tinha tapado a cara de Nigel. Simplesmente não conseguia olhar para ele, porque as suas feições e coloração apresentavam ainda saúde, o que não oferecia nenhum conforto. Era tentação a mais, pensar que se esperasse tempo suficiente, e dissesse alguma combinação de palavras, a sua outra metade sentar-se-ia e falaria.Um engano. E esse optimismo ridículo e impotente tinha de ser colocado de parte.Primeiro, tinha de tratar dos restos mortais. E depois tinha trabalho para fazer.Colin estendeu a mão e aconchegou uma dobra de seda debaixo do corpo. O conceito de rezar, para um anjo, era um conceito estranho. Por um lado podia ir directamente ao Criador, portanto pedir desejos ou ter esperanças era desnecessário. Por outro lado, rezar estava tipicamente enraizado no desespero e no desamparo, e nem um nem outro alguma vez ele havia sentido.Empinou a garrafa sobre os restos mortais, derramando o líquido claro que Nigel havia sempre preferido, num fluxo constante desde a cabeça até aos pés; depois tomou outro longo gole, levantou a palma da mão e convocou calor. À medida que o pedido de energia avançou, as moléculas super-carregadas arderam numa explosão de chamas brancas, o sangue prateado e o gin a criarem uma plataforma de ignição.Ele recuou alguns passos. Continuou a beber.Fumo da cor da neve subia enquanto Nigel era cremado, e Colin, ao testemunhar o esvoaçar daquelas ondas brancas, pensou nelas como uma forma de rezar, ou pelo menos seria o que mais perto disso teria.Ele acabou sentado no chão com as pernas cruzadas. A cremação estava a demorar mais tempo que o previsto, mas ele só sairia dali até não restar mais nada a não ser cinzas.E depois iria resolver esta disputa com o Jim Heron.Com a mesma adaga que Nigel havia usado em si próprio.   Capítulo 5 - Precisamos dela. Que mais posso dizer?Enquanto Adrian esperava que Jim respondesse, ele mudava a distribuição do seu peso para o outro pé, na tentativa de aliviar a sensação de carne triturada da sua perna magoada. Sem êxito.Jim lança um olhar para as escadas que acabam de ser usadas por Sissy.- Eu não a quero envolvida nisto.- Sim, já o tinhas dito.Adrian olha em volta para a ausência total de sofás e cadeiras no salão principal.A coxear através do espaço vazio, ele caminha até à sala de estar que se encontrava do lado esquerdo. Quando é que se tinham mudado para lá? Há uma semana? Quinze anos? Sem dúvida que a casa tinha entrado no final da sua vida, com o papel de parede a enrolar nos cantos, os tectos manchados e descascados, velhos orientais vitorianos desgastados e desfeitos.Agora? Quando entrava na sala de estar, o veludo dos sofás, a seda dos cortinados, o bolor à volta das estantes e os topos das mesas envernizadas estavam todos num brinco, como se ele tivesse entrado num museu cuidadosamente preservado, cujas peças tinham mais de oitocentos anos. O mesmo acontecia com a cozinha que utilizavam, os electrodomésticos dos anos quarenta, de repente, a trabalharem como se fossem novinhos em folha, os móveis de fórmica a brilhar de fresco. No piso de cima era a mesma coisa, toda a renda dos cortinados e as colchas a terem os seus buracos remendados e os seus fiapos arranjados. Assustador como o caraças. Primeiro assumiu que era porque alguém, e não ele, que estava a limpar os objectos. Mas nenhum trabalho Dyson poderia restaurar uma carpete, reparar o revestimento de uma cadeira, substituir o estuque de uma parede.Mas, para dizer a verdade, existia muito mais com se preocupar.Ao respirar, o cheiro a fumo persistia no ar e ele olha para a lareira. O detrito carbonizado à volta dos troncos queimados parecia papel, como se alguém tivesse tentado queimar uma colecção de enciclopédias. Mas não, não tinha sido isso. Aquela merda eram os restos dos lençóis que tinham protegido as mobílias velhas. Sissy tinha arrastado tudo para a lareira e acendido o fósforo.O fumo danificou e chamuscou as paredes à volta da lareira, e a carpete com dois metros de largura e um metro de comprimento, apesar de ser a versão Botox com o seu tratamento anti-idade, tinha sido bem queimada num semi-círculo.Graças a ela, provavelmente, perderam o depósito inicial da casa.E porra, mas talvez Jim tivesse razão. Se Sissy andava numa de incendiária... com a viajem que Jim teria que fazer, tê-la tresloucada não iria ajudar em nada.- Porque é que lhe contaste? - Disse Jim da porta. - Que porra de merda foi essa?- Contar-lhe o quê?- Sobre a Devina e eu.Ad vira-se para ele.- Eu não...- Tretas.Ad inclinou-se para a frente apesar da sua anca protestar.- Vou falar claramente, eu não contei porra nenhuma sobre ti e a Devina. Achas que quero piorar ainda mais a situação?Jim entra na sala, movendo-se como um animal enjaulado.- Então, como é que ela soube...- Já o tenho.À medida que Sissy aparece com o livro, Jim congela e olha só para ela, e no silêncio tenso, a única coisa que surgiu na mente de Adrian foi: porque caralho é que estes dois, só por uma vez, não tinham uma oportunidade? Porque a junção parecia mesmo má neste momento. Jim, evidentemente, não tinha dito nada sobre o seu amante demónio. E Ad até podia ser um parvalhão, mas ele ainda sabia as palavras que saíam da boca, e com toda a certeza que não tinha deitado nada cá para fora.Só havia mais uma fonte de informação com tal conhecimento.- Agora, vão-me falar sobre o Purgatório - disse Sissy -, ou vão tentar descobrir as instruções sozinhos?Jim deitou para fora uma extraordinária corrente de asneiras e nada fez para partilhar alguma informação, mas deu a entender que alguns objectos inanimados estavam em perigo eminente de serem derrubados.Quando o salvador, finalmente se acalmou, Ad só lhe apetecia esfregar a cara com um pedaço de lixa. Porque, de certeza, seria menos doloroso do que tudo o que estava a testemunhar.Obviamente, era ele que teria de discursar.- Okay, nós temos um chefe...- Deus - interrompeu Sissy.- Não. Apesar do Criador ser uma grande parte de tudo. - Bem, 'duh' para isso. - A brilhante ideia de Jim é ir até lá e trazê-lo de volta.- Ele está morto? Pensava que éramos imortais.Ele não tinha entrado ali para se sentar? Escolheu um sofá e sentou-se com a graça de uma mochila a cair de uma mesa para o chão.- O nosso chefe já não se encontra na existência. Que tal assim?- Então, existe uma maneira de sair daqui? Quero dizer, desta vida... ou o que seja?- Não. - Ele pensou em Eddie, mas dada a expressão intensa de Sissy, ele decidiu ficar quieto sobre isso. Já havia muita coisa com que se tinham de preocupar. - O nosso chefe está no Purgatório, e isso é só uma forma diferente de inferno imortal.- Tem de haver uma maneira de fazer isto sem ela - rosnou Jim de um canto.Sissy encara-o com um olhar capaz de perfurar um cofre bancário.- Preferes perguntar à tua namorada? Talvez ela possa ajudar.O olhar de Jim queimou a atravessar a sala. Mas não disse nada, os nervos em franja a calá-lo.Ad sacudiu a cabeça. Meu, agora percebia como Eddie se tinha sentido quando ele e Jim se tinham atirado um ao outro.- Esse livro - disse Ad a apontar para o maldito -, tem alguma coisa sobre o Purgatório? É disso que precisamos de saber. Eu não consigo ler, o Jim também não. Eddie até poderia, mas esqueceu-se dos óculos de leitura no Céu.Sissy aproximou-se e sentou-se no sofá oposto, colocando o antigo volume na mesa baixa de café. O livro estalou quando o abriu, e um brilho subtil pareceu sair das páginas de pergaminho, como se tivessem luz própria.Okay, eis um livro que nunca iria para a lista do New York Times. Existia apenas uma cópia, e não era suposto estar nas mãos de anjos. Feito com a pele dos pecadores, a «tinta» supostamente provinha da ejaculação dos lacaios de Devina. Quem sabe como teria sido feito? O objecto era puro mal, por dentro e por fora.
Se a Devina soubesse que tinham aquilo? Não seria muito divertido.- Não tem índice - Sissy murmurou ao virar as páginas. A escrita era muito densa, era como se cada página tivesse levado com uma pincelada preta, de fazer doer a cabeça quando se olhava. - E, também não existe uma organização interna. Passei horas a lê-lo... e não tenho a certeza quão útil será em relação ao quer que seja.- Sinceramente, surpreende-me que consigas lê-lo de todo - murmura Ad.- Bem, tive Latim no secundário.- Isso é Latim?- Ou uma derivação. As boas notícias?! Quanto mais eu me debruço nisto, mas fácil se torna. - Sissy olha para Jim. - Portanto, diz-me o que queres e eu talvez possa descobrir alguma coisa.Jim parou numa das janelas que iam desde o chão até ao tecto e olhou para fora. Com a luz do sol matinal a bater na sua cara, ele parecia esgotado em vez de revigorado. E isso não abonava nada a favor deles. Ad aclarou a garganta.- Eu consegui sair porque fui libertado pelo Criador... graças ao Nigel ir ter com Ele.- Falas do Purgatório? - Perguntou Sissy.- Sim, falo.- Santíssima... espera, tu estiveste lá? - Sissy abanou a cabeça. - Caramba, de todas as coisas que pensava que eram inventadas... Devia de ter prestado mais atenção à catequese.- Como já disse, fui libertado pela vontade do Criador, e não tenho conhecimento de ninguém que tivesse saído de lá por conta própria. - Ad vira o olhar para o salvador. - Mas vou dizer isto... não terás muito tempo, Jim. No momento em que estiveres lá, começas imediatamente a ter sarilhos. O verdadeiro desgaste leva algum tempo, mas começas a perder-te logo ao entrares. Quando o Eddie me encontrou, estava perto de ser um caso perdido. Mais tarde, descobri que só tinha lá estado um curto período de tempo.- Foi assim que o Inferno foi para mim. - Disse Sissy calmamente. - Foi uma... eternidade.A sobrancelha de Jim começou a tremer e ele passou um dedo por ela.- Então, vais até lá para o trazer de volta, porquê? - Ela perguntou.- Não tenho escolha. - Murmurou Jim a remexer nos bolsos. Tirou um Marlboro e acendeu-o. - Ou trazemos o Nigel de volta, ou fico com o lugar dele. E depois disto tudo? Quero ser aquele que vai derrubar a Devina. Mas mais importante, é a coisa certa a fazer.- Porque dizes isso?- Eu matei-o. Não directamente, mas a sua morte é culpa minha, e mesmo sendo um soldado profissional, é algo com que eu não posso viver.Sissy encarou-o durante um longo momento. Depois mergulhou a sua cabeça no livro e voltou à primeira página.- Alguém tem um bloco de notas e uma caneta?***Horas mais tarde, ao folhear as páginas do antigo livro, Sissy sentia alívio por descobrir que as palavras escritas no denso texto eram fáceis de ler como um romance de Nancy Drew. O que não era tão bom, apesar da compreensão aumentar, era o facto de não encontrar nada sobre o Purgatório.A maioria das passagens pareciam ser divagações de uma mente perversa, os argumentos fracamente integrados e a focarem-se na natureza e composição das almas, nas origens da vida física, no esquema do Céu, no equilíbrio entre o pecado e a virtude.E as estatísticas eram, pura e simplesmente, esquisitas. Porque haveria de alguém se preocupar com o número de pedras de algum castelo no Céu? Com o nome de Mansão das Almas?E com isso, o bloco de notas de papel amarelo permanecia em branco ao lado do livro, a Bic azul por escrever. Mas mesmo assim, os «não chegar a lado nenhum» eram, de alguma forma, úteis. Desde que ela tinha estado concentrada no livro, que não tinha pensado em incendiar nada.Deixando sair um gemido, ela espreguiçou-se para trás e deitou um olhar para a lareira. Quando um ressonar suave se fez ouvir, ela olha para Ad. Ele estava apagado como uma luz, a cabeça para trás sobre as almofadas do sofá de veludo, a perna magoada esticada num ângulo errado com a bota virada de lado, como se os ossos se tivessem fundido de forma errada.Jim tinha saído uns dez minutos antes, levando consigo o seu mau humor.Sissy coloca o livro de lado, levanta-se e estala o seu ombro direito. Depois sai da sala de estar, com intenção de ir para a cozinha e comer qualquer coisa, mas os planos mudam quando apanha um lampejo vermelho na janela do outro lado da porta da frente.- Mas que...?Na verdade, o brilho vermelho emanava, aparentemente, de cada pedaço de vidro ao redor da casa.Ao correr para a porta, quase que arranca os pesados painéis ao abri-la.Era como se alguém tivesse lançado uma bomba de tinta na propriedade, e esta tivesse ficado congelada no local durante a queda-livre, formando uma cobertura à volta de tudo. Do outro lado da cortina vermelha de luz, ela conseguia ver o relvado feio, o sol do meio-dia, o passeio e a estrada... bem como Jim parado no lado esquerdo, a palma da mão dele levantada para cima e a brilhar ainda com mais intensidade, como se fosse a fonte da iluminação.- Jim? - Disse ela.Ele ergueu a cabeça e os olhos abriram-se. Depois de um momento, ele baixa o braço e atravessa a direito a barreira que tinha criado.- O que é isto? - Ela perguntou com admiração.- Mais protecção.- Do quê? - Como se ela precisasse de perguntar.- Devina. Ela já entrou aqui, pelo menos uma vez.Um arrepio trespassou-a.- Quando?- Na outra noite.Enquanto ele caminhava para o alpendre, ela pousava a mão no antebraço dele.- Em casa? Como?Jim afastou-se dela e riu-se amargamente.- Ela transformou-se em ti. Fixe, não?- O quê?- Ela era como tu, desde o teu cabelo, aos teus olhos, à tua... - O olhar azul dele foi até à boca dela e assim ficou até ele se desprender. Depois inclinou-se, o seu tamanho a superar o dela, os seus olhos cansados nada mais do que facas aguçadas. - Ouve, quando disse que não te queria envolvida nisto, foi por uma boa razão, okay? Não te quero perder de novo, e principalmente, não me quero distrair deste jogo por me preocupar contigo.Sissy franziu o sobrolho, pensando na...- Quando fui bater à tua porta - disse ela, completamente assustada. - E tu em estado de choque por me veres. Foi quando ela o fez. Não foi? Foi quando ela se transformou em mim.Ele afasta-se e começa a caminhar na direcção da casa. Ela agarra no braço dele novamente.- O que fez ela?No silêncio tenso que se seguiu, ela lembrou-se da forma estranha com que ele a tinha olhado quando abriu a porta, como se ele nunca a tivesse visto antes. E agora, ele estava a fazer o mesmo.Ela recusou-se a desistir.- O que foi que ela...- Queres saber? Aqui vai. - Ele inclina-se mais uma vez, o ar entre eles a ficar carregado. - Ela tentou seduzir-me. Estava semi-nua na minha cama, com o teu corpo, a tua pele, o teu aroma. E quase resultou, que pensas disso?Sissy piscava os olhos várias vezes à medida que o seu corpo registava calor, mas não de raiva. Não, desta vez era uma coisa inteiramente diferente.Desejo sexual. Do tipo que só tinha lido em livros, ouvido falar, visto no grande ecrã, mas que nunca, nunca havia sentido. Nem de perto. E ela compreendeu muito bem o que ele estava a tentar fazer. Estava a tentar assustá-la. Só que tinha falhado, pois sem se aperceber... tinha feito uma valente confissão.Ela pensou em Bobby Carne e no seu jeito engatatão. Jim estava longe dessa produção triste, ele era um homem, não alguém do secundário com ilusões de ser o Ryan Reynolds. E a ideia de que alguma vez Jim pudesse ter estado atraído por ela, mesmo que fosse mentira...Mas, o demónio transformou-se nela, não foi?Jim desviou o olhar primeiro.- Não me olhes dessa maneira.- De que maneira? - Disse ela numa voz rouca.- Oh, Jesus - ele murmurou. - Tu não sabes...- Jim...- Não, nem pensar, eu tenho de ir... Eu tenho mesmo de ir.Com pés pesados, ele caminhou até à porta aberta e marchou escada à cima, o enorme corpo dele a mover-se rapidamente e com poder. Momentos depois, ele estava fora da sua visão e ela ouve uma porta a bater no segundo andar.Houve uma tentação de persegui-lo. Abrir aquela porta. Descobrir... o que estava por detrás daquele olhar quente. Mas ela teve a sensação de que tudo o que conseguiria seria uma discussão.Ou talvez, algo que ela se calhar não conseguiria lidar.Ela pensou no demónio no cemitério, tão cheia de si, tão confiante. Ora, isso é que era uma mulher... entidade, o que fosse... que tomaria conta de um homem como Jim...Bestial, agora apetecia-lhe encontrar um isqueiro e pô-lo em bom uso.Em vez de ir atrás dele, ou dar numa de Stephen King e ceder à sua incendiária interior, ela foi até à barreira de protecção e colocou a mão. Como se o brilho fosse um ser vivo, avançou para ela, envolvendo a sua mão, continuando a avançar, ficando conectado até ela retirar a mão.Depois de brincar com a conexão mais uma vez, ela volta para casa e fecha a porta reforçada. Em circunstâncias normais, ela ficaria impressionada com o tamanho e altura daquele carvalho, mas nada mais era normal, e ela tinha a sensação de que podia confiar naquilo que Jim tinha feito, mais do que qualquer outra construção humana.Parada ao pé das escadas, ela perguntou-se que estaria ele a fazer no quarto. A única forma de obter uma resposta era descobrir por ela própria, e que embaraçoso seria se ela entrasse pelo quarto adentro e ele estivesse a despir-se... a fazer a cama... a dobrar a roupa.Oh sim, até porque ele tinha tempo para se preocupar com essas duas últimas tarefas.Além disso, não significava que ela fizesse alguma coisa que fosse mudar a conversa entre eles.Enquanto ficava onde estava, uma parte dela lhe dizia que, por acaso, até havia outras coisas que ambos podiam fazer, coisas que estavam relacionadas com aquele olhar dele. Porra, talvez estivesse na altura de perder a virgindade. E assumindo isso como verdade... ela não conseguia pensar num único homem, vivo ou morto, a quem se dar do que Jim.- Merda - suspirou.


Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

2 comentários:

Confesso que não li tudo porque já li a V.O. e tenho umas quantas coisas que ainda quero fazer hoje, mas o que li está bom.

Bom trabalho Nightshade. :)

Sunshine, fico feliz que tenhas gostado:)
Agradeço também o teu feedback em relação a Blood Kiss.