quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Beijo de Sangue - Gostinho #1

É certo e sabido que não iremos ter cá o Legado, contudo, e porque somos um pouco sádicas [na minha humilde opinião, são influências de Vishous... só naquela], teremos pequenas traduções gentilmente cedidas pela nossa estimada Nightshade. Porém não se iludam, não será todo o livro, nada disso! Será um capitulo ou outro, nada seguido e basicamente irá manter-se no formato do IMMORTAL.
Não teremos dias para os "gostinhos" e devido a vida movimentada na Nightshade, pode até acontecer publicar-se este capítulo=gostinho e mais nenhum.

Digo e repito! NÃO será uma tradução completa do livro, mas sim capítulos que mais chamaram a atenção da nossa colega. 

Vamos lá, esperemos que gostem.



Legado da Adaga Negra

Beijo de Sangue

Capítulo 1

Casa de Audiências do Rei, Caldwell, Nova Iorque

Algumas graduações aconteciam em privado.
Alguns desses marcos importantes da próxima fase da vida não tinham nem chapéus, nem capas académicas, não tinham uma orquestra a tocar com pompa e circunstância. Não havia palco para atravessar ou diploma para pendurar na parede. Não havia testemunhas.
Algumas graduações eram marcadas pela simplicidade do quotidiano, o «nada de especial», como uma pessoa a carregar no pequeno botão azul do canto inferior direito de um ecrã de computador da Dell. Uma acção mundana feita muitas vezes numa semana, num mês, num ano, mas que, numa instância em particular, uma grande divisão entre o antes e o depois de uma ocorrência.
Enquanto Paradise, filha de sangue de Abalone, Primeiro Conselheiro de Wrath, filho de Wrath, pai de Wrath, Rei de todos os vampiros, se recostava na sua cadeira de escritório, ela olhava para o ecrã, agora negro, que estava à sua frente. Incrível. A noite porque tanto esperou estava quase aí.
Na maioria das últimas oito semanas, o tempo havia passado devagar, mas nestas últimas duas noites, as coisas tinham sido mudadas e viradas para modo de catapulta. De repente, depois de ter sofrido sete mil horas à espera que a lua subisse, ela sentia-se como se quisesse que as coisas abrandassem novamente.
O primeiro emprego dela era agora coisa do passado.
Olhando através da secretária, ela muda de sítio o telefone da secretária um centímetro… depois, coloca-o novamente aonde tinha estado. Ela endireita a libelinha de vitral do candeeiro Tiffany. Confere se as canetas azuis estão num compartimento e as vermelhas no outro. Passa a sua palma pelo mata-borrão livre de pó e o topo do monitor.
A sala de espera estava vazia, as cadeiras de seda desocupadas, as revistas colocadas em ordem nos lados das mesas, as bebidas servidas pelos doggen para aqueles que haviam aparecido todas limpas.
O último civil tinha saído cerca de trinta minutos atrás. O amanhecer chegaria dentro de duas horas. No fim de tudo, era um final normal de uma noite de trabalho árduo, tempo de ela e o pai voltarem para casa para desfrutarem de uma refeição cheia de conversa e planos e respeito mútuo.
Paradise inclinou-se para a frente e olhou em volta das arcadas da sala de espera. As portas duplas, onde dantes davam entrada ao que tinha sido a sala de jantar da mansão, estavam fechadas.
Sim, apenas uma noite normal, excepto pela não-normal reunião que ali estava a acontecer: Logo após a saída do último civil, o seu pai havia sido chamado para o gabinete de audiências e aquelas portas haviam sido fechadas.
Ele encontrava-se ali com o Rei, e dois membros da Irmandade da Adaga Negra.
- Não faças isso comigo - disse ela. - Não me tires isto de mim.
Paradise levantou-se e andou em redor, reendireitando as revistas, recompondo as almofadas, parando em frente duma pintura a óleo de um rei Francês.
Regressando às arcadas, ela olha para os painéis fechados da sala de jantar e ouve o bater do seu coração.
Levantando as mãos, ela apalpa os calos das suas palmas. Eles não surgiram do trabalho que fez para o seu pai e a Irmandade nos últimos dois meses, a organizar horários e a identificar potenciais problemas, resoluções e seguimentos dos casos. Não, pela primeira vez na sua vida, ela tem frequentado um ginásio. A levantar pesos. A correr nas passadeiras rolantes. Flexões, abdominais, elevações, máquina de remo.
Até à data, ela nem sabia que existiam máquinas de remo ou o que eram.
E era tudo para a preparação de amanhã à noite.
Assumindo que aquele grupo de machos na sala de audiências do Rei não lhe iam negar isso.
Amanhã, à meia-noite, ela é suposto juntar-se a machos e fêmeas, que só a Virgem Escrivã sabia quantos, num local secreto, onde ela ia tentar entrar para o programa de treino de soldados da Irmandade da Adaga Negra.
Era um bom plano, algo que ela tinha decidido seguir, uma oportunidade de ser independente e dar cabo de alguém e provar a si própria que era mais do que versão de luxo. O problema? Filhas de sangue da glymera, e ainda por cima de uma das famílias fundadoras, não treinavam para se tornarem soldados. Elas não manuseavam armas ou facas. Elas não aprendiam a lutar ou a defenderem-se. Elas nem sequer sabiam o que era um minguante.
Elas nem sequer interagiam com soldados.
Filhas como ela aprendiam a arte de bordar, música clássica e canto, boas maneiras, e a comandar mansões cheias de doggen. Esperava-se que soubessem o complicado calendário social de ciclos festivos, que se actualizassem com os complicados requerimentos do guarda-roupa, e saberem a diferença entre Van Cleef & Arpels, Boucheron e Cartier. Elas eram acolhidas, protegidas e cuidadas como jóias.
A única coisa perigosa que eram autorizadas a fazer? Acasalar. Com um hellren escolhido pela sua família para assegurar a santidade das linhagens de sangue.
Era um milagre o pai dela estar a deixá-la fazer isto.
Ele, certamente, não tinha concordado quando lhe havia mostrado pela primeira vez a inscrição, mas depois, ele havia mudado de opinião e tinha-a deixado inscrever-se no programa: Os ataques de há dois anos atrás, quando tantos vampiros haviam sido mortos pela Sociedade dos Minguantes, a provarem o quão perigoso Caldwell, Nova Iorque podia ser. E ela havia lhe dito que não queria sair e lutar na guerra. Só desejava saber como se defender.
No momento em que tinha exposto os termos da segurança dela? Foi quando o seu pai havia mudado de opinião.
A verdade verdadeira era que ela só queria algo que fosse dela. Uma identidade que viesse de outro lado para além do que o seu lugar de nascimento impunha.
Mais, Peyton tinha-lhe dito que não o podia fazer.
Porque ela era uma fêmea.
Merda para isso.
Paradise olhou novamente para aquelas portas fechadas.
- Vá lá…
Andando às voltas, ela acabou por sair da sala, não queria ficar muito perto de onde os machos se reuniam, como se isso fosse azarar as coisas.
Deus, o que é que falavam tanto ali?
Normalmente, o Rei saía logo após a última audiência da noite. Se ele ou a Irmandade tinham algum assunto privado ou o que fosse sobre a guerra, tudo isso era discutido na residência da Primeira Família, um local tão secreto que nem ela, nem o pai haviam sido ainda convidados a comparecer.
Então, sim, o que fosse tinha que ser sobre ela.
Regressando à área de espera, ela foi até à secretária e contou as horas em que se tinha sentado ali. Ela só tinha trabalhado ali durante dois meses, e até gostou do trabalho, até aquele momento. Na sua ausência, assumindo que ela ficaria no programa de treino da Irmandade da Adaga Negra, uma prima dela haveria de a substituir, e ela havia passado as últimas sete noites a mostrar à rapariga os procedimentos e afazeres que Paradise havia feito, fazendo com que a transição corresse de forma suave.
Sentando-se na cadeira, ela abre a gaveta do meio e tira a inscrição dela, como se isso pudesse, de alguma maneira, assegurar de que tudo ainda ia acontecer.
À medida que segurava no papel nas mãos, ela perguntou-se quem mais iria estar na orientação de amanhã… e pensou no macho que havia aparecido na casa de audiências, à procura de uma versão imprimida da inscrição.
Alto, ombros largos, voz profunda. A usar um boné de basebol dos Syracuse, e calças de ganga tão gastas que tinham de ser de trabalho.
A comunidade de vampiros era pequena, e ela nunca o tinha visto antes, mas talvez ele fosse só um civil? Essa era outra mudança no programa de treino. Até à data, só machos da aristocracia é que eram convidados a trabalhar com a Irmandade.
Ele havia-lhe dado o seu nome, mas recusou-se a cumprimentá-la com a mão.
Craeg. Era tudo o que ela sabia.
No entanto, ele não tinha sido mal-educado. De facto, ele tinha-a apoiado com a inscrição dela.
Ele também tinha sido… cativante duma maneira que a tinha chocado, de tal forma que ela esperou semanas que ele regressasse com a inscrição. Não o fez. Talvez ele tivesse feito um scanner e enviado a coisa dessa forma.
Ou talvez, ele tinha decidido não atender ao programa.
Parecia loucura ficar desapontada por não o ter visto de novo.
Com o telemóvel dela a tocar, ela assusta-se e vai até ao objecto. Peyton. Novamente.
Ela iria vê-lo na orientação de amanhã à noite, e seria breve o suficiente. Depois da discussão que tiveram por ela se juntar ao programa, ela teve que se afastar daquela amizade.
Por outro lado, e se a Irmandade estaria a frustrar as intenções dela com o pai? Aquela indignação justa que sentiu pelo tipo ia ser um ponto desnecessário. Mas, vá lá, fêmeas podiam inscrever-se.
O problema era que ela não era uma fêmea «normal».
Pelo amor de Deus, ela não sabia o que ia fazer se o pai dela recuasse na decisão. No entanto, seguramente, a Irmandade não iria esperar até ao último momento para lhe negar um lugar.
Certo?
***
No outro lado da cidade, a shellan acasalada com o Irmão da Adaga Negra Dhestroyer, Butch O’Neal, recostou-se na sua cadeira de escritório no Sítio Seguro. Com a coisa a ranger, ela tamborila com a sua caneta Bic na anotação no calendário da Empresa OfficeMax e muda o auscultador do seu telefone para a outra orelha.
Cortando com a conversação, ela diz:
- Bem, certamente que aprecio o convite, mas eu não posso…
A fêmea no outro lado da linha não deixou escapar nada. Ela só se limitava a falar, a sua entoação aristocrática a absorver toda a rede telefónica - até que era de perguntar como é que o código postal da zona não sofria um esgotamento eléctrico.
- … e pode perceber como necessitamos da sua ajuda. Este é o primeiro festival de Baile do Décimo Segundo Mês que foi organizado desde os ataques. Como shellan de um Irmão, e membro de uma Família Fundadora, seria perfeita para presidir este evento…
Dando oportunidade para outro não, Marissa interrompe:
- Não sei se tem noção, mas eu trabalho a tempo inteiro como directora do Sítio Seguro e…
- … e o seu irmão disse que seria uma boa escolha.
Marissa ficou em silêncio.
O seu primeiro pensamento foi que era muito improvável que Havers, o médico da raça e o seu muito, muito, muito distanciado familiar próximo, a tivesse recomendado para qualquer coisa a não ser uma morte prematura. O segundo pensamento foi mais na linha de calcular… quanto tempo passou desde que tinha falado com ele. Dois anos? Três? Desde que ele a tinha expulso de casa deles, cinco minutos antes da alvorada, quando descobriu que ela estava interessada num mero humano.
Que afinal, revelou-se ser primo de Wrath e o recipiente para a lenda do Dhestroyer.
Como gostas de mim agora?, ouviu-se perguntar na sua cabeça.
- Portanto, tem que presidir o evento. - Concluiu a fêmea. Como se tivesse terminado o assunto.
- Vai ter que me perdoar. - Marissa pigarreou. - Mas o meu irmão não está numa posição em que possa proferir o meu nome para o que quer que seja, visto que não nos falamos há já algum tempo.
Quando mais nada a não ser um silêncio carregado surgiu na ligação, ela decidiu que devia ter revelado a roupa suja da sua família uns dez minutos antes: Membros da glymera deviam obedecer a certos códigos rigorosos de conduta - e expor uma rixa colossal na sua linhagem de sangue, apesar de ser bem conhecida, simplesmente era uma coisa que não se fazia.
É bem mais apropriado que outros sussurrem sobre o assunto por detrás das costas.
Infelizmente, a fêmea recuperou e mudou de táctica:
- É de importância vital, a qualquer custo, que todos os membros da nossa classe resumem os festivais…
Uma batida na porta do seu escritório levou os olhos de Marissa a olharem em redor.
- Sim?
Através do telefone, a fêmea disse:
- Maravilhoso! Poderá vir até a minha casa…
- Não, não. Alguém precisa de mim. - Marissa falou alto. - Entre.
No momento em que viu a expressão no rosto de Mary, ela praguejou. As notícias não eram boas. A shellan de Rhage era uma profissional consumada, para ela estar naquele estado? Era um problema sério.
Era aquilo sangue na camisa dela?
Marissa baixou de tom e cortou a cordialidade.
- A minha resposta é não. O meu trabalho requer todo o meu tempo. Além disso, se é assim tão apaixonada, você deveria de ficar com a tarefa. Adeus.
Atirando com o auscultador no descanso do telefone, ela levanta-se:
- O que é que se passa?
- Temos uma recém-chegada que precisa de cuidados imediatos. Não consigo entrar em contacto com a Dra. Jane ou Ehlena. Não sei o que fazer.
Marissa correu à volta da secretária.
- Onde está ela?
- Lá em baixo.
O par desceu o lanço de escadas a correr com Marissa a liderar.
- Como é que ela veio até nós.
- Não sei. Uma das câmaras de segurança apanhou-a na relva a rastejar.
- O quê?
- O meu telemóvel tocou com um alerta, e eu fui até lá com Rhym. Carregámo-la até ao vestíbulo.
Contornando o canto inferior, Marissa derrapou num dos tapetes de pêlo alto…
E parou por completo.
Quando viu as condições da fêmea que estava no sofá, ela coloca uma mão sobre a boca.
- Oh, meu querido Deus… - Ela suspirou.
Sangue. Havia sangue por todo o lado, no chão a pingar, a encharcar as toalhas brancas que pressionavam contra as feridas, a fazer poça debaixo de um dos pés da fêmea na carpete.
A rapariga foi agredida de tal forma que não havia como identificá-la, as suas feições tão inchadas, que se não tivesse cabelo comprido e uma camisa rasgada, nem se seria capaz de saber de que género era. Um braço estava, claramente deslocado, o membro pendurado de forma errada a partir do ombro… e só tinha um sapato de salto alto no pé esquerdo, as suas meias rasgadas.
A sua respiração era má, muito má. Nada a não ser um chocalho no seu peito, como se tivesse a afogar-se no seu próprio sangue.
Rhym, a supervisora, olhou através do sítio onde estava acocorada no sofá. Através das lágrimas nos seus olhos, ela suspirou:
- Não acho que ela vá viver. Como pode viver…?
Marissa teve que se recompor. Era a única opção.
- A Dra. Jane e Ehlena, estão ambas indisponíveis? - Disse ela com uma voz embargada.
- Tentei a mansão - replicou Mary. - A clínica. Os telemóveis. Duas vezes em todos os sítios.
Por um segundo, Marissa ficou aterrorizada sobre o que é que isso significaria para a sua própria vida. Estariam os Irmãos em sarilhos médicos? Estaria Butch okay?
Isso durou apenas um momento.
- Dá-me o teu telemóvel e leva os residentes para o anexo Wellsie. Quero todos lá para o caso de ter de chamar um macho.
Mary atirou-lhe o telemóvel e assentiu.
- Deixa isso comigo.
O Sítio Seguro era mesmo isto - um sítio seguro para fêmeas vítimas de violência doméstica, que vêm à procura de abrigo e reabilitação com as suas crias. E depois de Marissa passar séculos incontáveis e inúteis com a glymera, a não ser nada do que a prometida não reclamada do Rei, ela havia descoberto a sua vocação aqui, no serviço daqueles que foram abusados verbal e fisicamente, e no pior dos casos, tratados de forma horrível.
Machos não estavam permitidos de lá entrarem.
Mas para salvar a vida desta fêmea, ela iria quebrar essa regra.
Atende o teu telemóvel, Manny, pensou ela quando o primeiro toque soou. Atende o maldito do teu telemóvel…

Esperamos que tenham gostado!

*Nasan

1 comentários:

Obrigado por estes bocadinhos, fazem os meus dias ficarem melhores =)

Bom trabalho. Beijinho